ÁCIDO SULFÚRICO: A BIOGRAFIA AUTORIZADA Dos "Vozes de Puta" aos "The Debauchers" No clima de generalizada cretinice encartada, pseudo-moralismo, beatice, falso-heroísmo-carne-para-canhão e pidesca bufaria que caracterizava os finais dos anos 60, Carlos B., Carlos V., Fernando S. e Pedro P. encontraram-se no mesmo liceu de Lisboa e descobriram algumas formas de luta básicas contra a realidade dum país provinciano e paroquial: o humor negro, o “non sense”, o delírio consciente (Carlos V. começou a construir um “catamaran” oceânico numa pequena varanda de um prédio dos então subúrbios e praticava canoagem imaginária durante as aulas), a rigorosa experimentação científica (Pedro P. colocava revistas pornográficas dentro da Bíblia do professor de Religião e Moral para quantificar o índice de reactividade do clero ou descia a escada do seu prédio completamente nú para estudar a probabilidade de atingir a porta de entrada sem ser detectado), o cavalheirismo esquerdista (Carlos B. assistia aos banhos das empregadas domésticas da sua avó para lhes poder estender a toalha no momento exacto, evitando que se constipassem) ou a “sex politic” involuntária (Fernando S. degustava moças debaixo dos saveiros da Trafaria, nos longos intervalos nocturnos da pesca ao safio). Em 1977, já mudado o regime mas mantendo-se o clima de mongoloidismo cultural, decidiram formar o grupo de intervenção anarco-niilista-dádá-surrealista-abjeccionista “Vozes de Puta”, que utilizava uma instrumentação minimalista – guitarra clássica, congas e vozes – e dava grande ênfase à qualidade dos textos. Foram impedidos de actuar logo no seu primeiro concerto, e assim o público alarve foi privado de pérolas como “O Coro das Meninas” (tema dedicado às trabalhadoras e aos seus utentes), ou o fantástico cover “Quero que vocé me sirva de agasalho, e que tudo o mais vá pró caralho”. Em 1979, Carlos B, Fernando S. e Pedro P. - Carlos V. que já era actor preferiu enveredar pela intervenção dádá no âmbito da função pública, tornando a sua repartição num centro de “performances” ultravanguardistas: por exemplo, utilizava o carro do estado para ir à baixa comprar “clips” e deixáva-o estacionado de forma a interromper o trânsito na rua do Ouro, só para prejudicar a alta finança - decidiram formar um grupo eléctrico. A ideia era cantar em inglês devido à violência das letras, para ao menos conseguir chegar a actuar em público uma vez que fosse. Para baterista foi coaptado Tony V. (um fã de Johnny Rotten e Paul MacCartney que tinha um pequeno estúdio, ideal para acolher “teen agers” desvalidas), a guitarra ritmo ficou a cargo de Fernando S. Pedro P, o único verdadeiro músico do grupo (tinha formação clássica, mas preferia de longe Jimmy Page a Andrés Segovia) tomou então a seu cargo a “lead guitar”, a direcção musical e a pesada tarefa de pôr Carlos B. (uma perfeita negação para tudo que não fosse dormir, sexo ou literatura) a tocar a guitarra baixo. Após meses de duríssimos ensaios na “Senófila” – tugúrio abjecto, habitat de grupos de baile patilho-chulecos de sociedades recreativas, célebre pelos seus “madeiros com cordas”, só utilizáveis por um ouvido tão requintado como o de Sid Vicious – começou a surgir um reportório que incluia uma revisitação em formato punk de clássicos dos “Rolling Stones” ("Satisfaction", "Simpathy for the Devil"), Lou Reed (“Vicious”) e do rockn´roll dos “fifties", temas dos Sex Pistols (“Anarchy in the UK” e “Silly Thing”) e dois originais: “I’m Sick” - onde se vomitava o país pequeno-burguesóide - e “Fags, Fagots & Gays”- onde se defendia o "direito à diferença", para que sobrassem mais mulheres engatáveis pelos membros do grupo, entretanto crismado de “The Debauchers”. Estes originais em inglês destinavam-se a servir de base a uma futura versão em português, que seria a definitiva. Dos "The Debauchers" aos "H2SO4" Com velhos amplificadores alugados, um PA mínimo, guitarras baratas, mas compradas a custo - Carlos B., Fernando S. e Pedro P. frequentavam agora a mesma abominável Faculdade, infestada de catedráticos fósseis, muitos regressados do império colonial perdido, e de colegas finórios embrionários ou simples paraplégicos mentais a quem a família convencera da bondade da equação marranço acrítico = diplomazinho = bom empregozinho + bom casamentozinho + boas pantufinhas, e quase tinham de se prostituir para completar as suas fracas mesadas; só Tony V., à data o único trabalhador em “full time” (era programador de computadores numa das glórias industriais do PREC), tinha já um instrumento decente (uma bateria “Premier”) - “The Debauchers” actuaram pela primeira vez em público a 1 de Fevereiro de 1980 * na sala de condomínios de um prédio da Quinta da Luz, em Benfica, à época uma das urbanizações coqueluche da decadente burguesia “pós-revolucionária”. A entrada era por convites (que foram desenhados pela irmã de Carlos B. e “impressos” a fotocopiadora a preto e branco), mas, para além de amigos, colegas, namoradas (várias, de preferência sem saberem umas das outras), amigas (ou seja, possíveis futuras namoradas, a conservar sempre em “banho-maria”) e “groupies” (das quais algumas substituiam ainda, infelizmente, o orgasmo venéreo pelo orgasmo musical) esteve presente um fotógrafo da cena rock, que, numa pequena notícia publicada à época no “Sete” (ver recorte), afirmou “irradiam uma certa energia que não deixa indiferente a malta". Pudera, nem os inquilinos, nem os transeuntes, até às cercanias da 2ª circular, conseguiram ficar indiferentes à verdadeira tempestade de som produzida, quanto mais os espectadores próximos! No entanto, aquele que viria a ser em breve o fã número um do grupo, o desenhador de arquitectura Barbosa, fez então uma queixa que daí em diante sempre repetiria: o baixo não está suficientemente alto! Seja como fôr, a coesão sonora apresentada e os elaborados solos de Pedro P., completamente ao arrepio do “bad playing” militante do punk, mais do que salvaram o dia. Terá o “look” utilizado influenciado também o resultado final? Trata-se de uma incógnita que ainda hoje permanece. De facto, cada membro dos “The Debauchers” podia optar pelo “look” que quizesse, mas registou-se uma certa tendência espontânea à volta da maquilhagem – que foi executada “in loco” por M., então musa de Carlos B (os ténis sempre foram consensuais porque minimizam os choques eléctricos das guitarras). Depois do êxito que constituiu o concerto da Quinta da Luz, quantificável através dos acentuados reflexos que teve na melhoria da vida sexual dos membros do grupo (aumento exponencial da oferta), foram retomados os ensaios na Senófila e alargado o reportório para incluir mais covers dos Stones (“Street Fighting Man”, “Honky Tonk Woman”) e da florescente “new wave” - daí em diante outra das grandes fontes inspiradoras, em paralelo com o “rhythm&blues”: “I’m the Man” (Joe Jackson), “Born in the Fifties” (Police), “Surfin’ Bird”, “I’m Gonna Be Well” (Ramones) - em preparação para o concerto seguinte, que decorreria incluído no programa de festas de primavera de uma Faculdade lisboeta (9 de Maio de 1980). Dado que se tratava de um público mais vasto, muito menos conhecido e de onde supostamente sairia uma parte da futura élite nacional, foi escolhido deliberadamente um “look” eclético e cosmopolita que cruzava “clássico retro” (Tony V. – camisa branca, gravata estreita e fato “pin strippe”escuro) “smart-trash” (Fernando S. – pijama desbotado; Pedro P. – colar de clips, camisola interior de meia manga, calças enxovalhadas e casaco puído de outro fato) e “pop-chuleco latino” (Carlos B. – T-shirt de cavador, calças de cabedal, lenço branco à “mangas” ao pescoço e casaco de bombazine amarrotado). Depois da actuação foram tiradas, numa casa de banho da Faculdade, (obra-prima da arqueologia do segundo regime democrático português que encerrava importantes vestígios pictóricos das acéfalas lutas ideológicas travadas entre os “fascistas” e os “sociais-fascistas” entre 75 e 76) as primeiras fotografias oficiais do grupo. Novamente utilizando amplificadores e PA alugados e as mesmas guitarras sofríveis, o concerto acabou por ser um sucesso. A euforia da assistência, potenciada por algum consumo etílico e de outras substâncias, foi tanta que Carlos B. viu a sua preciosa estante ser derrubada por pares dançantes furiosos que pisaram e roubaram as “pautas” e teve de tocar as últimas músicas guiando-se pelas posições das mãos de Pedro P., que de vez em quando também lhe gritava as tónicas. Como na altura as linhas de baixo eram escritas por Pedro P. tendo em conta as limitadíssimas capacidades do “executante”, ou seja consistiam apenas de tónicas e quintas e no caso de temas de rockn´roll dos “fifties” de tónicas, terceiras, quartas, quintas, sextas e sétimas, o estrago foi imperceptível. ________ * Na realidade tinha havido uma actuação “selvagem” prévia e inesperada, ainda em 1979 (Novembro), quando a solicitação de um grupo de “artistas de vanguarda” holandeses - os ARIA - conhecidos de Tony V., “The Debauchers” se deslocaram directamente de um ensaio para a exposição “ready-made” destes – que decorria num andar de um prédio do Chiado e era constituída por uma “instalação” “anti-média” ( uma televisão ligada mas não sintonizada, colocada sobre um poster inidentificável) rodeada de uma “moldura viva” de bébados e/ou charrados de ambos os sexos, ainda em pé, já caídos ou mesmo deitados, acompanhada da respectiva acumulação de garrafas vazias e beatas, a que se podiam (e deviam) juntar outras “performances” artísticas. Fernando S. não participou porque ainda não pertencia à banda nessa fase, Pedro P. tocou guitarra, Tony V. tarola e Carlos B. pandeireta, mas após o primeiro tema (um cover dos Beatles em versão punk) optaram por dedicar-se a explorar as facetas artísticas das estrangeiras presentes. Os dois temas originais - “I’m Sick” (mais punk/new wave) e “Fags, Fagots&Gays” (mais hard rock), músicas de Pedro P. e letras de Pedro P. e Carlos B. - foram tão bem recebidos como as “covers”, o que encorajou imediatamente novas tentativas de composição. E assim surgiu, “Train/Station”, embrião do futuro tema “Doidos” e primeira incursão do grupo no “reggae branco", experimentado pela primeira vez numa sala de ensaios da Praça Paiva Couceiro que tinha a vantagem de oferecer muito melhores amplificadores do que a Senófila e a desvantagem de os mesmos amplificadores terem os botões trancados para não poderem ser utilizados com o volume máximo. Na altura foram também trabalhadas novas “covers”, como “Smoke on the Water” e “Roadhouse Blues”. Estava-se no início do Verão de 1980, no auge da “new wave” e no ocaso lento do “disco sound” e sentiam-se ainda os últimos acordes da época dourada do rock sinfónico. O “punk” e a “new wave” tinham introduzido uma atitude mais testicular, musculada e directa quer a nível instrumental e musical, quer a nível das letras, e até os músicos de “jazz” saiam da sua altivez minoritária habitual para tocarem “jazz/rock”. Foi um momento de grandes colisões a nível das opções estéticas, a que “The Debauchers” não podiam ficar imunes. Fernando S. mais interessado numa música de base vocal e rítmica, na linha dos "Supertramp", abandonou então o grupo. Carlos B., Pedro P. e Tony V., queriam manter uma linha “new wave”, mas fortemente apoiada no “rhythm&blues/hard rock”. Surgiu então a ideia de convidar uma “groupie” afinada – conhecida por Xinha (o seu verdadeiro nome constitui até hoje um segredo bem guardado) – para vocalista, o que permitiria não só libertar Pedro P. para prosseguir nas suas sofisticações instrumentais kriegerianas, claptonianas e pageanas como reforçar o “sex-appeal” do grupo, que passaria doravante a chamar-se “H2SO4” (fundado a 05/07/1980), em honra das ácidas letras em português que Carlos B. e Pedro P. iam esboçando e ultimando, em noites de boémia, nos guardanapos das cervejarias e discotecas, onde procuravam desesperadamente inspiração (?) no meio de uma fauna troglodita e alienada de clones travoltianos com a ejaculação precoce estampada no rosto e falsas lindaslovelaces (não confundir com Lene Lovich) à procura de caçar um macho, obrigá-lo a procriar e tornar-se “ad vitam” um “pilar da comunidade”. O Primeiro Ano dos H2SO4 Foi então necessário construir temas especificamente para uma voz feminina e assim surgiu o obcessivo “I Don’t Want to Share You (With Someone Else)”, o futuro "Não te Vou Deixar Para Mais Ninguém") – a letra, inspirada por uma situação real da “vida sentimental” de Carlos B., mas de leitura unisexo, foi musicada sem pestanejar por Pedro P., embora ele à época (?) não acreditasse na existência do amor, quanto mais num amor exclusivo. Mas se Sting podia querer o amor exclusivo de uma puta (Roxanne), porque não podia Carlos B. querer o amor exclusivo da sua musa neo-hippie M.? - bem como os temas “Set Your Scholls on Fire” (mais tarde "Andar à Porrada"), “Stinking” (depois "Farto de Ti") e “TNT” (posteriormente "Rebentar"), em que se apelava à revolta e se profetizava o fim das escolas, da sociedade organizada e mesmo da Humanidade (para pôr fim a tantos séculos de estupidez, beatice, corrupção e crimes absurdos), para além da constante insistência na impossibilidade de quaisquer relações estáveis entre os dois sexos. Foram então retomados os ensaios, para rodar a nova formação, os novos temas e também três novos "covers": “I Want You to Want Me” (dos Cheap Trick), “So Lonely” dos Police e os clássicos "Soul Kitchen" (dos "The Doors") e “Sunshine Your Love” dos Cream, mas na versão de Jimmy Hendrix - que permitia evidenciar o grande progresso da banda a nível instrumental, inteiramente devido à persistência da direcção musical de Pedro P. Os H2SO4 deram o seu primeiro concerto no restaurante “Velha Goa” (em 27 de Dezembro de 1980) em Campo de Ourique - bairro dos saudosos Ford Capri com estofos de leopardo e ferradura na grelha, palco de interessantes actividades nocturnas no "Jardim da Pedrada", onde vivia alegremente o baterista . Para combater o “stage fright”, Xinha, que era, evidentemente, quase abstémia (!?), utilizou largas doses de wiskhy e o seu “look” de "matadora new wave”: vestido-calça preto, cinto branco, casaco branco, “stilettos” brancos e óculos escuros. Para não destoarem, Carlos B., Pedro P. e Tony V. usaram fatos pretos “existencialistas” dos anos 50 comprados em enésima mão na feira da ladra e T-shirts brancas de “operário” (resquício de alguma costela marxista romântica). Com a sala completamente apinhada, e as libidos inflamadas ao rubro, tudo correu muito bem até a altura em que o amplificador de Pedro P. teve um “black out”. Por sorte foi durante a parte instrumental da cover “Sunshine of Your Love” (em que Xinha não cantava) e Carlos B. tocou todas as linhas de funkyblues em Mi e Lá que sabia, secundado por variações de bateria de Tony V., enquanto Pedro P. consertava o amplificador para re-entrar, executar brilhantemente o final do solo e tocar o último “chorus”, perante o delírio geral do público. Em resumo, os H2SO4 e os quatro novos temas originais (+ o respescado “Fags, Fagots&Gays”; “I’m Sick” deixou de ser tocado porque não se adaptava à voz de Xinha) tinham passado a prova de fogo do “ao vivo” e mesmo despertado a atenção da máfia mediática da época: no final do concerto foi feito o convite para uma actuação com transmissão directa na “Febre de Sábado de Manhã”. Assim que o espectáculo do "Velha Goa" acabou, Carlos B. e Pedro P. - que estava com sérios problemas pessoais devido à presença inesperada na assistência de seres do sexo feminino inconciliáveis a respeito de um alegado direito de exclusividade – fugiram rapidamente para o Algarve – já então muito destruído pela corja vampírico-boçal dos construtores civis (uma autêntica doença venérea incurável) e dos autarcas que recebiam os seus “envelopes” - no velho mini do segundo - para “lamberem as feridas”, ou melhor “fazerem lamber as suas feridas”. A Pedro P. coube a pesada tarefa de não desiludir uma “groupie” alemã que investigava o efeito da margarina no comportamento sexual dos povos latinos (felizmente a alemã tinha um bilhete de avião “pex” que não permitia adiar a volta). Em 3 de Janeiro de 1981, novamente com um “look” a preto e branco - a única excepção foi a pesada corrente dourada que Carlos B., influenciado pelos proxenetas shaftianos doentios das “soul sisters”, levou ao pescoço -, num ambiente de verdadeiro furor uterino “teen ager” e com o apresentador de dentadura cavalar - Júlio Isidro – a quem tinha sido atribuída a invenção da expressão “pessoal da pesada”, muito em voga na altura - a pedir aos técnicos que subissem ao máximo o som, os H2SO4 tocaram, com emissão em directo na Rádio Comercial, “I Don’t Want to Share You (With Someone Else”)”, “Sunshine of Your Love” (instrumental) e “Fags, Fagots&Gays”. A “atitude” de Xinha e os solos elaborados de Pedro P. – mesmo quando curtos e raivosos, como no primeiro tema -, levantaram a sala. A foto então tirada no “backstage” (após a função) mostra bem o elevado nível circulante de endorfinas do grupo, reflexo apenas de um “extâse” xamânico-tribal e não de quaisquer ajudas etanólicas – como a actuação era ao fim da manhã, Xinha não teve tempo para se enfrascar. Mas, mais importante do que a histeria de um público que não distinguia um Mi de um Lá, foi a opinião espontânea dos técnicos de som Joca e Fló de que não eram apenas um grupo "new wave" dado que tocavam bem “rhythm&blues”. O sucesso foi comemorado com um almoço de javali na Picheleira – à época outro mítico bairro de “chulogândulos” e ajudantes de cabeleireira especializadas em “cabritos”; é preciso ter em conta que os H2SO4 procediam incansavelmente a uma recolha etnológica permanente para base de elaboração das suas futuras letras - onde houve tempo para analisar o primeiro cachet recebido: um conjunto de perfumes e frascos de champô, oferecidos pelas marcas patrocinadoras da máfia radiofónica. Foi uma época intensa de actuações ao vivo, com passagem pela Aula Magna da Universidade Clássica de Lisboa no dia 24 de Janeiro de 1981 partilhando com os "Opinião Pública" a primeira parte de um festival de rock em que a atracção principal eram os UHF, que já na altura associavam a uma postura arrogante - inspirada pelo narcisismo doentio do suposto vocalista - a necessidade de "trapaçar" as outras bandas estragando-lhes propositadamente o som. Apesar desta infame sabotagem, o concerto foi um sucesso tendo o H2SO4 sido comparado aos "Talking Heads" por um dos críticos da época. Talvez a utilização de fatos de macaco cor de laranja, para variar do look urbano-depressivo habitual, o tenha induzido neste terrível erro! Veio então o convite para actuar no “Rock Rendez Vous” (antes o velho cinema Universal, onde depois de uma vaga pós-revolucionária imediata de filmes soviéticos e alemães, com uma duração mínima de 8 horas, tinha sido exibido “Saló ou os 120 Dias de Sodoma”, rapidamente célebre entre o bisamonte lisboeta pela cena das escravas sexuais a comerem merda). Foi um concerto (29/01/1981) marcado por um clima de nervos: depois de um dia anterior de ensaio geral sem problemas, já na afinação final, antes da entrada em palco, partiram-se duas cordas do baixo de Carlos B. – era um velho “Eko” mais que estafado, com a “ponte” em ruínas, que tinha pertencido a um obscuro grupo de baile sopeirodomingal. Na impossibilidade de comprar cordas aquela hora da noite, foi preciso pedir um baixo emprestado. A actuação sofreu um atraso de hora e meia, o que aumentou muito o “stage fright” de Xinha – que nada tinha melhorado com os dois primeiros espectáculos – e em consequência o seu grau de alcoolémia. O alinhamento utilizado incluiu “Fags, Fagots&Gays”, “I Don’t Want to Share You (With Someone Else”), “Set Your Scholls on Fire”, "Stinking" e “TNT”, bem como o “cover” dos Blondie “Hangin’ on the Telephone”. Pode dizer-se que apesar de ligeiras fífias de Carlos B. – a tocar num instrumento a cujo braço não estava habituado – e de Xinha – que, apesar da habitual supervisão do paciente namorado, já estava com uns “wiskhies” valentes no bucho – a generalidade da assistência (de notar que a sala estava “à pinha”) vibrou e gostou. Entretanto já tinha surgido o convite da máfia fonográfica – havia três editoras interessadas - para a gravação de um disco que, em princípio, teria como lado A “I Don’t Want to Share You (With Someone Else”) e como lado B “Fags, Fagots&Gays”, nas suas versões em português - "Não Te Vou Deixar Para Mais Ninguém" e "Bicha". Infelizmente, o contrato veio a ser assinado com a editora (Vadeca), a que mais grupos arrebanhou mas que menos gravações concretizou – o “honesto empresário” que nos vende “um pouco do nosso ar”, retratado no tema o “Reino da Estupidez” (gravado muito anos mais tarde, em 1992), sempre foi endémico em Portugal. E Então Ficaram 3 O stress da espera da suposta gravação e a perspectiva de novas actuações ao vivo em espaços cada vez maiores foram demais para a vocalista Xinha que decidiu abandonar o "show business" a 4 de Março de 1981, rude golpe para as ambições fonográficas dos H2SO4 a curto prazo. Com um concerto marcado para 27 de Março no Pavilhão do Clube Naval de Setúbal, fazendo a primeira parte dos "Salada de Frutas" - onde pontificava o melhor par de mamas do rock português da altura e quiçá talvez do país (!?) - foi com renovadas doses de testosterona que o agora trio se desmultiplicou em ensaios para se apresentar condignamente ao lado da "Diva" (de notar que da cintura para baixo os argumentos da bela também eram fortíssimos ... infelizmente, parafraseando os Rolling Stones, "o tempo não espera por ninguém"). Mais uma vez graças ao talento musical de Pedro P., que assumiu a solo as vocalizações, escreveu novos arranjos vocais e ultimou um novo tema original intitulado"Não", tudo em tempo recorde (por causa disso teve um ataque de "caganeira" minutos antes da actuação, o que lhe permitiu experimentar as fabulosas latrinas moçárabes daquela prestimosa colectividade), foi possível cumprir o contrato. Quando foi tocado o tema "Bicha", houve uma curiosa reacção de rejeição por parte de certos sectores do público, materializada no arremesso de garrafas contra a banda, na verdade um acto premonitório da futura "abicharação" completa do país. Dois dias depois os H2SO4 voltaram a actuar ao vivo no "Velha Goa". Talvez por ser Domingo, ou por falta de divulgação, o público foi mais escasso. Paradoxalmente ou talvez não, nesse ambiente mais descontraído o grupo rubricou uma das suas melhores actuações de sempre. A crise da saída da vocalista tinha sido superada e mesmo em trio o progresso musical era evidente. Prosseguiram os ensaios e começou a ser retrabalhado o tema "Doidos", enquanto o Correio da Manhã e o Sete continuavam a noticiar a gravação iminente do disco - também reafirmada pela Vadeca. Mas o prolongado incumprimento do contrato por parte desta última levou à denuncia do mesmo por parte da banda no final do ano de 1981. O H2SO4 continuou a ensaiar e acriar novos temas durante todo o ano de 1982. "A Solução Final", "O Estripador", "Nada com Ninguém" e o "Velho Nojento", são exemplos de músicas desse período conturbado ... nunca foram tocadas ao vivo, tendo no entanto ficado nos arquivos de CarlosB. e Pedro P. que as recuperaram mais tarde. Infelizmente, em Outubro de 1982, devido a profundas alterações na vida pessoal de cada um dos elementos da banda (dois deles tinham mesmo iniciado actividades profissionais) os H2SO4 chegaram ao fim, sem que isso significasse um adeus definitivo à música e/ou mesmo entre os 3 elementos da banda. Anos 90 - O "Projecto Ácido Sulfúrico" No início dos anos 90 Pedro .P e Carlos B., amigos de longa data (que se mantiveram sempre em contacto desde o fim dos H2SO4) voltaram a encontrar-se em Lisboa com o propósito de retomarem a actividade artistico-criativa. O grande motivador desse facto foi a constatação de que os textos elaborados no início da década de 80 (corrosivos, iconoclastas e politicamente incorrectos), sobre a triste realidade nacional e mesmo mundial, mantinham toda a actualidade parecendo quase premonitórios. Começou a trabalhar-se no sentido de repescar músicas antigas nunca gravadas e fazer um CD, alinhando alguns temas dos H2SO4 agora sob a denominação - "Projecto Ácido Sulfúrico" - com meios técnicos mais sofisticados, permitindo uma qualidade sonora profissional. Iniciaram-se então algumas gravações em 92 a partir de uma "worksation midi", à qual se adicionaram "takes de guitarra e baixo". Foi nessa altura essencial a colaboração de Zé X. , músico profissional que emprestou, através da execução de novos arranjos e da sua soberba execução nos teclados, novas sonoridades ao projecto. Decidiu-se incluir no album denominado "Reino da Estupidez" alguns dos temas dos H2SO4 em português, entremeados de novas músicas da autoria do "Projecto Ácido Sulfúrico", com o mesmo espírito corrosivo de "rock de intervenção" (como pode consultar-se no "depliant" que acompanhou o album), terminado e editado pelos autores em 1996. Tratando-se de uma edição de autor, foi feito um número reduzido de exemplares, vendidos a amigos e conhecidos. A aceitação por parte desta comunidade foi boa, embora muitas vezes algumas pessoas se sentissem incomodadas com a violência e o realismo de algumas letras ... houve até quem se sentisse retratado nalgumas das canções que compõem o CD. Como sabemos neste país ninguém (há excepções) gosta de ouvir as verdades e de encarar determinadas coisas de frente, preferindo fazer como as avestruzes!! A ideia de voltar a tocar ao vivo continuava cada vez mais forte e tudo apontava nesse sentido quando novas alterações a nível da vida pessoal, profissional e mesmo da saúde dos dois elementos do projecto levaram a mais um interregno de 8 anos. O "Projecto Ácido Sulfúrico no Novo Milénio (2004 em direcção ao futuro) Curiosamente foi de novo a ocorrência de mudanças drasticas na vida pessoal dos membros do projecto que levou ao retomar da actividade, a partir do ponto em que se tinha ficado em 1996. Havia muito texto por musicar e alguns temas carencendo de letras adequadas mas, principalmente, a vontade de dar á banda um som mais cru à base de guitarras, como se de expectáculos ao vivo se tratasse. A existência de um estudio caseiro facilitou esta empresa, cujos trabalhos foram retomados a um ritmo intenso a partir de 2004, prevalecendo actualmente o "rock de intervenção" com novos temas (está claro!), tendo sido finalmente terminados os arranjos e gravações de tudo o que ficara para trás desde os tempos imemoriais dos H2SO4. O novo album (CD) chama-se "Na Escola do Paraíso" e se alguém estiver à espera que com o passar do tempo o Ácido Sulfúrico tenha amenizado e/ou adocicado os seus textos, desengane-se - são 14 faixas (com dois temas bónus oriundos da época punk 1980-1982), que de certeza não deixarão o país indiferente! É para ouvir, pensar e obviamente (passe o brasileirismo) "curtir"!
Projecto Ácido Sulfúrico (para além dos anos 90), a aventura continua!"Azuis &", (ou Azuis 6) afinal blues sempre foi uma especialidade dos Ácido Sulfúrico"Cicatrizes" - definitivamente acho que não é de mexer mais neste tema " É Pessoal que se Foda" - pela primeira vez foi musicada uma letra não oriunda... more
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